Zé Qualqué - Medíocre como você


De janelas e espelhos

Pois bem, estava olhando a janela como você tinha pedido. A paisagem é a mesma que me fez cometer aquele poema, lembra? Já faz algum tempo.
 
Diante da minha janela há os fundos de um prédio baixo e antigo, com uns quatro ou cinco andares. No térreo, funciona uma padaria e alguns outros comércios simples, um chaveiro, uma lotérica, e quetais.

Nos andares acima, há vários apartamentos modestos, por assim dizer. Muitas janelas, roupas penduradas nos varais, mas nunca movimento. Essa visão é tão triste.

As paredes estão todas velhas e cinzas, exceto pelos cantos, cumes e reentrâncias, estes, pretos, corroídos e porosos, marcados pela água que escorre irregularmente quando chove. Como se lágrimas tivessem marcado um rosto apático e envelhecido. Lágrimas que escorreram de olhos melancólicos há longa data.

E se os olhos falam, os desse prédio - suas janelas - dizem meias palavras, murmuram e calam. Elas estão semi-cerradas, escuras, turvas. Suas cortinas sempre esvoaçando ao vento quente. Desleixadas, elas abandonam seus postos e agarram-se à parede externa, tão suja e áspera. Elas deixam suas funções, mas ninguém se incomoda. A luz que entra pelos vão deixado nas janelas não revela sequer um vulto. Dez, talvez quinze janelas iguais, todas vazias. 
 
Ainda esperava ver alguém naquele prédio. Há sempre roupas penduradas em varais que pendem dos para-peitos. Uma camisa, uma calça, toalhas. Se hoje aquela janela não tem roupa alguma, a adjacente acomoda outras tantas toalhas, mais coloridas, nota-se; e algumas camisetas, talvez peças menores, quem sabe?

Não importa. Um dia alguém há de pendurá-las, não? Não importa.
 
Olho na outra direção e vejo, agora sim, uma imagem que reconheço. Um grande prédio envidraçado. Ele abriga tantas gentes, tantos “recursos humanos” e sua “vida besta”. Parece um grande espelho com quatro faces. Na face que eu olho, vejo, muito pequeno, o meu reflexo. “Eta vida besta”!
 
Parecem bobas essas coisas que eu escrevo com pretensões literárias. Mas todas as minhas pretensões não importam agora, se é que um dia importarão. Quando você me telefonou desejando, dividir essa tarde comigo eu olhei pela janela e comecei a escrever isso, pois quis dividir a minha tarde com você.

Eis a mesma visão triste e desolada daquele dia, de outros tantos dias, mas hoje há uma grande diferença: hoje eu vi uma pessoa naquela janela, a mais alta, bem em frente à minha. Era um homem, ele ficou lá debruçado, olhando despreocupado não sei o que. Segurava o queixo e olhava para baixo. Vez por outra tragava um cigarro lentamente. Depois de alguns minutos ele se espreguiçou e sumiu no breu de seu quarto.

Sabe-se lá se aquele homem não era um eletricista, um pai de família, um bandido, um escroto, ou um Zé qualquer. Isso também não importa. O que importa, é que, quando eu olhei pela janela, vi muito mais do que minha vida besta e medíocre refletida em tantos espelhos como eu. Quando olhei pela janela, vi como a sua tarde está realmente linda!



Escrito por Zé às 15h59
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