Zé Qualqué - Medíocre como você


Da série: “Estava flutuando e vi meu corpo sentado diante do computador”

Se a minha vida fosse um livro com narrador onisciente, provavelmente ele diria algo assim: "E José olhou cansado para o mundo. Riu-se. Gargalhou-se até ficar ainda mais exausto e então teve uma vontade incontrolável de acender um cigarro e não fazer nada. Talvez soprar fumaça na cara das pessoas do mundo e rir-se um pouco mais".



Escrito por Zé às 19h31
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De janelas e espelhos

Pois bem, estava olhando a janela como você tinha pedido. A paisagem é a mesma que me fez cometer aquele poema, lembra? Já faz algum tempo.
 
Diante da minha janela há os fundos de um prédio baixo e antigo, com uns quatro ou cinco andares. No térreo, funciona uma padaria e alguns outros comércios simples, um chaveiro, uma lotérica, e quetais.

Nos andares acima, há vários apartamentos modestos, por assim dizer. Muitas janelas, roupas penduradas nos varais, mas nunca movimento. Essa visão é tão triste.

As paredes estão todas velhas e cinzas, exceto pelos cantos, cumes e reentrâncias, estes, pretos, corroídos e porosos, marcados pela água que escorre irregularmente quando chove. Como se lágrimas tivessem marcado um rosto apático e envelhecido. Lágrimas que escorreram de olhos melancólicos há longa data.

E se os olhos falam, os desse prédio - suas janelas - dizem meias palavras, murmuram e calam. Elas estão semi-cerradas, escuras, turvas. Suas cortinas sempre esvoaçando ao vento quente. Desleixadas, elas abandonam seus postos e agarram-se à parede externa, tão suja e áspera. Elas deixam suas funções, mas ninguém se incomoda. A luz que entra pelos vão deixado nas janelas não revela sequer um vulto. Dez, talvez quinze janelas iguais, todas vazias. 
 
Ainda esperava ver alguém naquele prédio. Há sempre roupas penduradas em varais que pendem dos para-peitos. Uma camisa, uma calça, toalhas. Se hoje aquela janela não tem roupa alguma, a adjacente acomoda outras tantas toalhas, mais coloridas, nota-se; e algumas camisetas, talvez peças menores, quem sabe?

Não importa. Um dia alguém há de pendurá-las, não? Não importa.
 
Olho na outra direção e vejo, agora sim, uma imagem que reconheço. Um grande prédio envidraçado. Ele abriga tantas gentes, tantos “recursos humanos” e sua “vida besta”. Parece um grande espelho com quatro faces. Na face que eu olho, vejo, muito pequeno, o meu reflexo. “Eta vida besta”!
 
Parecem bobas essas coisas que eu escrevo com pretensões literárias. Mas todas as minhas pretensões não importam agora, se é que um dia importarão. Quando você me telefonou desejando, dividir essa tarde comigo eu olhei pela janela e comecei a escrever isso, pois quis dividir a minha tarde com você.

Eis a mesma visão triste e desolada daquele dia, de outros tantos dias, mas hoje há uma grande diferença: hoje eu vi uma pessoa naquela janela, a mais alta, bem em frente à minha. Era um homem, ele ficou lá debruçado, olhando despreocupado não sei o que. Segurava o queixo e olhava para baixo. Vez por outra tragava um cigarro lentamente. Depois de alguns minutos ele se espreguiçou e sumiu no breu de seu quarto.

Sabe-se lá se aquele homem não era um eletricista, um pai de família, um bandido, um escroto, ou um Zé qualquer. Isso também não importa. O que importa, é que, quando eu olhei pela janela, vi muito mais do que minha vida besta e medíocre refletida em tantos espelhos como eu. Quando olhei pela janela, vi como a sua tarde está realmente linda!



Escrito por Zé às 15h59
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Prostituição

Certa vez me foi perguntado neste quase-blog se sou jornalista. Na ocasião, respondi que não. A propósito desta mesma pergunta, o Laba, um de meus 2 ou 3 leitores, afirmou que eu sou uma “prostituta intelectual”, o que pode ter soado um tanto agressivo...

Inda que um pouco tarde, mostro agora de onde veio essa expressão tão bem empregada por meu amigo.

"The business of the journalists is to destroy the truth, to lie outright, to pervert, to vilify, to fawn at the feet of mammon, and to sell his country and his race for his daily bread. You know it and I know it, and what folly is this toasting an independent press? We are the tools and vassals of rich men behind the scenes. We are the jumping jacks, they pull the strings and we dance. Our talents, our possibilities and our lives are all the property of other men. We are intellectual prostitutes." (John Swinton, the Chief of Staff New York Times, 1953)



Escrito por Zé às 16h53
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Da série: Não leia, role o scroll e faça um comentário dispensável qualquer

Eis a segunda parte do texto. Esta sim, um pouco mais curta. Amanhã será publicada a terceira e ainda inédita parte. A partir de então, posts concebidos como tais, sem promessa, porém.

Enfim, mais um para a série: "Role o scroll, não leia e faça um comentário dispensável qualquer", afinal, todos queremos fazer amigos em meio a essa multidão solitária, blazé e burra... 

Os não-lugares
Segunda parte: Jd. Maria Luiza – Lrgo. da Póvora – 715-M

Sentido bairro-centro:
Butantã
Serra da Costela
Av. Corifeu de A Marques
Recife
Pinheiros

Hum! Que vento gelado. Eram exatamente seis e meia da manhã. Aquele vento frio do dia que ainda não nasceu direito estava especialmente cruel. Nem precisou esperar muito e já podia tomar o seu caminho para o cursinho. Putz, quanta gente. Vai ser difícil encontrar um lugar aqui dentro. Toda manhã é assim.

Empurrou e foi empurrado por quinze minutos, moveu-se alguns metros. Ali, nem sinal do frio da manhã. Naquele horário, tinha certeza de que iria em pé o caminho todo. Com muito esforço conseguiu um espaço para apoiar os dois pés no chão. Uma vitória. 

Para sua surpresa, aquele senhor sentado logo ao seu lado decidiu descer. Todos ao redor se espremeram um pouco mais para que o homem pudesse se levantar e sair. Bem, se ninguém vai se sentar, eu sento. Puxa, como aquele banco de plástico cinza, todo rabiscado de pincel atômico pode ser confortável nessas horas, não?

Meu nome é Severino,/ não tenho outro de pia./ como há muitos Severinos./ que é santo de romaria,/ deram então de me chamar/ Severino de Maria;/ como há muitos Severinos,/Com mães chamadas Maria,/ fiquei sendo o da Maria/ do finado Zacarias./ Mas isso ainda diz pouco:/há muitos na freguesia,/ por causa de um coronel/ que se chamou Zacarias/ e que foi o mais antigo/ senhor desta sesmaria./ Como então dizer quem fala/ ora a Vossas Senhorias?/ Vejamos: é o Severino/ da Maria do Zacarias,/ lá da serra da Costela,/ limites da Paraíba.

E ficou ali, vagando pela Paraíba rumo ao Recife. Passou por povoados, viu orações para os mortos, chegou à zona da mata e nem se deu conta de que seu ponto já era o próximo. Opa, quase perco meu lugar para descer! Levantou correndo, tentando chegar à porta sem empurrar gente demais – algo inevitável – mas notou que não ia dar tempo. Vai descer, motorista! Vai descer! Com um pouco mais de paciência e alguns “delicados empurrões”, conseguiu sair daquele aperto. Algumas quadras do bairro de Pinheiros e já chegava ao seu destino. A primeira aula do dia era de física. E ele ia agüentar o professor Vicente e suas piadas repetidas. Como o cursinho é chato!...



Escrito por Zé às 16h46
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Comentários

Antes de prosseguir com minha pequena trilogia, terei de fazer algo que nunca tinha sido necessário fazer neste quase-blog: comentar ou responder aos comentários deixados por visitantes.

Com uma fama repentina, este quase-blog acumulou 460 acessos e 34 comentários. Que bonito, não? Dois posts sem nexo, sem absolutamente nada a acrescentar ao leitor e mais, (lembrando que possivelmente não foram lidos, posto que longos e pobres) reuniram 34 comentários...

Não vou me dar ao trabalho de contar, mas creio que de 80% a 90% são absolutamente dispensáveis. É com base nessa idéia que respondo ao primeiro post que me chamou a  tenção.

A Aimi perguntou como eu defino "ser medíocre". Ora, Aimi, ser medíocre é ser exatamente como vc, como eu, como tantas quantas pessoas que fazem blogs, como tantas quantas que não fazem, enfim.

Ser medíocre é, entre outras coisas, não ter muito para dizer ou pensar além de "Oi, sou Fulano, seu blog é muito bacana. Visite o meu! FulanoDeTal.qualquer.coisa". Ninguém se ofenda, o mundo é assim... Medíocre.

Outro comentário que me chamou a atenção foi o da Marcela Guimarães, que pergunta se sou jornalista. Bem, Marcela, eu diria que não.

Breve, a segunda parte do texto.



Escrito por Zé às 13h58
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Uma leitura dispersa ou Algo para correr o scroll

Como não pretendo escrutinar (ou será escrutinizar?) meu dia-a-dia diante de olhos medíocres como os seus - tão meidíocres quanto os meus - , decidi republicar nesta nova casa, alguns de meus velhos posts.

O que se segue é um texto despretensioso que escrevi dia destes. Não esperem nada além de alguns minutos de uma leitura dispersa, vaga curiosidade temperada com algum tédio e nenhum brilhantismo ou mesmo bom-humor. Àqueles que se arriscarem a ler, tanto melhor.

Posto que é um texto longo, decidi dividi-lo em três partes. E já aviso, não há versões estendias. Ei-lo:

Os Não-Lugares
Primeira parte: Jd. Maria Luiza – Lrgo. da Póvora – 715-M

Sentido centro-bairro:
Liberdade
Queens
Av. Paulista
Manhatan
Butantã

Que calor ! Era mais ou menos uma e meia, um puta sol. Depois dos habituais trinta minutos de paciente espera ali naquela ruazinha, finalmente ele poderia tomar o seu lugar. Pelo horário e localização, sempre podia escolher, e fazia questão, não se sabe bem por que, de sentar-se perto da porta. Exatamente no penúltimo banco. Seu lugar...

Em pouco tempo já estava acomodado, na medido possível. Logo ao sentar naquele banco de plástico cinza todo rabiscado de pincel atômico, até podia sentir algum conforto. Como se perdem as referências, não? Um banco de plástico cinza, um sol escaldante, uma mochila pesada nas costas, um walkman ligado no ouvido, resumindo: conforto.

A madrugada em Nova York estava fria, escura e chuvosa. A Dra. Kafka havia pedido ajuda ao Homem Aranha, pois seu mais perigoso paciente, um homem perturbado e violento que se auto intitulava Ratus, havia fugido da clínica e poderia fazer mais vitimas. O homem era um louco incontrolável. Enquanto balançava pendurado por suas teias, o Homem Aranha procurava desesperadamente por algum rastro do assassino.

Está ali! Eu sabia que ia acabar encontrando. Peguei você, Ratus! Nada de novas vítimas para sua lista. Socorro! Alguém me ajude! Chega de sangue desta vez eu acabo com... você!? Não me machuca, cara! Não me machuca, cara!

Putz, não era o Ratus! Era só um ladrãozinho qualquer... O Aranha está totalmente obcecado por isso.... De onde veio esse Ratus, mesmo? Que legal, o Homem Aranha tá mó irado com essa história! Que legal! Sorriu para si mesmo e continuou em Nova York. Magnífico, agora estou caçando sombras. Preciso voltar pra casa... Descansar. Recomeçar amanhã. Amanhã? Amanhã pode ser tarde demais.

Mas em outra parte da cidade um motorista de caminhão é pego de surpresa. O Ratus nem fala nada, pula no vidro do caminhão, agarra o homem pelo pescoço e o joga longe! Nossa! Que animal, esse cara é malvado mesmo! Que legal... Que calor, já deve ser umas duas horas. Oitenta e nove, a rádio rock! São duas e quinze e você acabou de ouvir ‘Losing My Religion’, com R.E.M. Ah, que saco essa música! Eles bem que podiam tocar mais heavy metal, né? Nossa, que trânsito! Hoje eu não chego em casa.

Que calor... Peter Parker não consegue nem dormir a noite toda. Na manhã seguinte ele vai com sua esposa, Mary Jane, e com sua tia May ao cemitério. Seus rostos não escondem o pesar, eles foram visitar os túmulos dos pais de Peter. Richard era um menino especial... Como Peter! Puxa, a pobre tia May está super triste. Era uma manhã ensolarada em Nova York, mas o Homem Aranha continuava obcecado por capturar o Ratus antes que ele fizesse mais vítimas.

Olhou pela janela e reparou em alguém. Em meio àquela multidão de rostos, roupas, memórias e pressas, ele olha para aquele executivo de terno. O homem, com uns 35 anos talvez, esperava nada paciente o sinal de pedestres ficar verde. Terno escuro, exatamente igual a todos os outros. Ele sim tá com calor, eu de camiseta estou derretendo, imagina aquele cara. Concordou com a cabeça como se conversasse com alguém. Olhou para o outro lado. Uma mulher gorda, segurando uma bolsa, olhava pela mesma janela mas parecia não estar naquele lugar. Nem ao seu lado, nem na calçada. Ele abaixou o olhar desinteressado. Voltou para Nova York, para o Homem Aranha e sua luta contra o crime. Cochilou.

Que calor louco... Opa, já estou chegado. Esse é o lugar onde eu desço. Pegou sua mochila. Nos ouvidos, Metallica no último volume. “Take a look to de sky just berofe you die, it´s the last time you will!”. Andou algumas quadras e chegou ao seu lugar. Sua casa.

Fim da primeira parte



Escrito por Zé às 16h54
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Casa nova, mesma merda

PoiZé... Por agora não convêm muitas explicações, basta que o leitor saiba que este quase-blog está em nova casa, nova URL, aquele papo todo. Mesmo em casa nova, devo lembrar àqueles que já conhecem a realidade da vida e àqueles que talvez ainda estão iludidos: "Não há vida além da mediocridade".

O que eu quero dizer com isso é muito simples, este continua a ser um blog absolutamente MEDÍOCRE, exatamente como você.  Num futuro breve deverei ter mais bobagens para que estiver disposto a discordar de mim. Dentre as tantas dúvidas que tenho agora, a que mais me perturba é: que faço eu com os posts que tenho em meu antigo blog?
A propósito, meu antigo blog é algo como http://zequalque.blig.com.br

Sem mais, bem-vindos, queridos medíocres.



Escrito por Zé às 22h33
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14/03/2004 a 20/03/2004




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